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Alexandre Mandl
Alexandre Mandl
Alexandre Mandl é advogado constituído nos autos. É membro do coletivo jurídico do MNRC e da RENAP (Rede Nacional de Advogados(as) Populares). É especialista em Direito Constitucional pela Puc-Campinas. É membro da Esquerda Marxista, tendência brasileira da Corrente Marxista Internacional.


Altamiro Borges
Altamiro Borges
Jornalista, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, militante do PCdoB e autor do livro "A ditadura da mídia"
Antônio Augusto Queiroz
Antônio Augusto Queiroz
Jornalista, analista político e Diretor de Documentação do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
Douglas Belchior
Douglas Belchior
historiador e integrante da Uneafro Brasil (União de Núcleos de Educação Popular para Negros, Negras e Classe Trabalhadora).
FITERT
FITERT
Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão
Jacy Afonso de Melo
Jacy Afonso de Melo
Bancário, é Secretário de Organização da CUT Nacional.
Jorge Luiz Souto Maior
Jorge Luiz Souto Maior
juiz do Trabalho e professor da Faculdade de Direito da USP.
Juliana Almeida
Juliana Almeida
Radialista e jornalista
Manoel Vicente dos Santos 'Kid Noel'
Manoel Vicente dos Santos 'Kid Noel'
Radialista, jornalista, secretário de Imprensa da FITERT e professor de História formado pela UFMS.
Nicola Manna Piraino
Nicola Manna Piraino
Advogado do Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e da FITERT
Rosane Berttoti
Rosane Berttoti
Secretária de Comunicação da CUT Nacional e coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
Sally Burch
Sally Burch
jornalista da Alai (Agência Latinoamericana de Informação)
www.alainet.org

Vilson Vieira Jr.
Vilson Vieira Jr.
Jornalista, associado ao Coletivo Intervozes e mestrando em Ciências Sociais na
21/09/2012
Radialista sim senhor, com muito orgulho
por: Manoel Vicente dos Santos 'Kid Noel'
Quando alguém busca sua emissora favorita para ouvir, música, informação e companhia, invariavelmente existe a simpatia pelo ser humano que conduz através da voz os devaneios  daquele ser  que o sintoniza.
O radialista é alguém comum. Tão simples que as vezes contraria totalmente a expectativa de quem busca conhecê-lo pessoalmente. Somos assim. Digo isso, com o aval de quase três décadas nessa maravilhosa odisséia que é o mundo da comunicação via rádio. Nessa profissão, o que eu mais tive oportunidade de conhecer, observar e analisar foi gente. E aí, aos poucos fui percebendo que mais que comunicar eu gosto mesmo é de gente. Do contato, do falar com as pessoas, do ouvir as pessoas aprendi o óbvio – somos semelhantes, todavia não somos iguais.
E hoje, no meu dia, eu quero  e me permitam a presunção, falar de mim. Da minha experiência de radialista. Nunca imaginei que chegaria onde cheguei. Sim, porque qual seria o destino daquela criança pobre que aos dez anos de idade vendia pastel  a beira do rio Paraguai ?  Pois eu vos digo, meu querido, minha querida que passa os olhos por estas linhas. Eu também não sei.  Só sei que de pasteleiro, jornaleiro, balconista de farmácia, cartorário,  bancário, universitário, professor, um dia me deparei com a oportunidade de fazer um teste em uma emissora de rádio. Não levei muita fé em mim ao ouvir a minha voz gravada pela primeira vez. Ainda que o técnico da emissora ficasse entusiasmado com a gravação reproduzida em um equipamento da marca ‘akai’, pensava eu – ‘...esse carinha só quer me agradar para me dispensar com educação.’
O resultado é que de um grupo de mais de trinta pessoas que fez o  teste, fui o único aprovado.  E pasmem, senhoras e senhores. Estou nessa até hoje.
Uma das coisas mais marcante que ouvi quando comecei na profissão veio de um locutor de voz poderosa e ex-proprietário de rádio chamado Barcelos de Jesus : “Noel, essa profissão não dá grana. Tem de pegar a pastinha e ir para as ruas.”  Foi o conselho mais útil que alguém poderia ter me dado.  Em paralelo com o microfone e o estúdio, lá ia eu pelas ruas para vender anúncios e patrocínios de programa. Foi fácil entender que as emissoras eram grandes e luxuosas vitrines onde eu poderia expor o meu talento. Meu sustento viria mesmo era da combinação -  boa audiência e pastinha suada debaixo do braço.
Acredito, que muito mais que vender sonhos e embalar ilusões através das ondas hertzianas, sempre consegui ser um excelente vendedor do meu melhor produto – eu mesmo. Em quase trinta anos nesta seara do rádio, jamais o desemprego bateu a minha porta. Sempre houve alguma emissora disposta a contratar este ser humano com timbre de baritenor.
Um dos maiores legados que a profissão de radialista me deu foi o percorrer com livre trânsito as escalas sociais da sociedade onde vivo. De governadores ao gari mais humilde. De artistas famosos aos mambembes. Da dona da casa a  sua empregada doméstica. Fiz meu nome assim. Amando o que faço  e respeitando quem me ouve.
Essa minha história tem muito em comum com a de muitos outros radialistas que espalham otimismo em doses homeopáticas diárias pelos ares desse país. A diferença é que cada uma tem suas particularidades. E eu me orgulho muito dos caminhos que percorri para chegar até aqui. Nesta terra onde vivo, entro e saio de cabeça erguida de qualquer lugar. Raramente preciso me apresentar. Quase todos conhecem  esta face que também já teve a oportunidade de se mostrar ao povo na tela mágica de diversas emissoras de televisão.
Não pense que este texto é uma apologia ao eu. Só quero retratar aqui, a imensa gratidão que tenho a Deus e a minha família pela alegria de ser quem sou por causa do ofício que abracei. Financeiramente o rádio não me deu muito. Todavia, não consigo me ver em outras profissões que poderia ter exercido. Nós, seres humanos somos movidos a prazer e satisfação. E o rádio me deu e dá isso em todos os momentos. Talvez conhecesse a felicidade de outras formas. Mas não teria a amplitude que tem o êxtase de ser radialista. 
A você que algum dia me ouviu, acompanhou um programa que apresentei, que se emocionou com as mensagens que interpretei ou sorriu com algo pitoresco que falei guarde a minha eterna gratidão e saiba que nesses fugazes momentos você me ajudou a escrever a minha história e isso só trouxe valor a minha vida e profissão.
Daquele comecinho de minha história no rádio em Cuiabá, quando por várias vezes precisei vender meus vales-transporte na praça da república para levar o pão para meus pequeninos em casa, até os dias de hoje onde sou reconhecido pelo meu trabalho  muita coisa aconteceu. Mudei de casamento. Meus filhos cresceram e se transformaram em adultos maravilhosos. Amigos partiram fora do combinado. Dona Dalva, minha mãe me deixou aos sessenta e nove anos. Acrescentei novos amigos a minha vida, outros foram ejetados por deslealdade não a mim, mas ao valor que tem esse sentimento. Diversos quilos foram somados a minha silhueta.  E  em tudo isso o rádio esteve presente. Uma testemunha ocular da minha trajetória.
Sou radialista com muito orgulho e sei que nasci para isso.
Eu sou o Kid Noel e você pode me chamar de amigo. E um dia e  espero que demore a chegar quando eu for contratado pela rádio paraíso transcrevam em minha lápide (caso não consigam me cremar) ‘As linhas jamais estão ocupadas quando se quer falar com Deus.’
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